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CONCÍLIO VATICANO II E A VIDA CONSAGRADA Passados estes cinquenta anos do Concílio, os consagrados...

Date post: 10-Nov-2018
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23 CONCÍLIO VATICANO II E A VIDA CONSAGRADA The Second Vatican Council and the Consecrated Life Aquilino Bocos Merino, cmf * RESUMO: A presente reflexão inicia localizando a história da vida da Igreja, e mais especificamente da vida religiosa antes do Concílio Vaticano II, seu contexto e suas perspectivas. Em seguida situa a vida religiosa nos documentos conciliares, ressaltando seus valores e atualidade, bem como o frescor de sua proposta, reconhecendo nela todo o valor eclesial e o caráter de “sinal claríssimo do reino dos céus”. Não sem tensões a vida religiosa evolui. O Sínodo sobre a vida e missão dos consagrados tornou-se um marco sem precedentes na história da Igreja. O autor escolheu quatro 2. pontos que retratam as grandes mudanças da vida consagrada: o espiritual; , o antropológico, o eclesiológico e o missionário. Eles se inter-relacionam e se complementam. Passados estes cinquenta anos do Concílio, os consagrados vão descobrindo sua própria identidade carismática e tratam de vivê-la com paixão, no meio de um mundo secular, pluricultural e globalizado. Bem cedo se fez a releitura da vida religiosa, desde a LG, AG, GS e o MR como uma missão no mundo. E este novo espírito vem entusiasmando a vida consagrada. PALAVRAS CHAVE: Vida consagrada, identidade, missão, Igreja, renovação. ABSTRACT: This reflection starts locating, specifically, Religious Life before the second Vatican Council, its context and its perspectives. Then, it situates the Religious Life in the conciliar documents, highlighting its values and actuality, as well as the freshness of its proposal, recognizing in it the whole ecclesial value and the character of being a “clearest sign of the kingdom of heaven”. Not without tensions, the Religious Life has developed. The Synod on the life and mission of Consecrated persons became an unprecedented milestone in the history of the Church. The author chose four points that depict the major changes of the Consecrated Life: the spiritual, the anthropological, the ecclesiological and the missionary. They are interrelated and complement each other. Along these past fifty years of the Council, Consecrated persons are discovering their own charismatic identity and try to live it with passion, in the midst of a secular, multicultural and globalized world. Early was done the rereading of Religious Life since the LG, AG, GS and MR as a mission in the world. And the Consecrated Life has been enthused by this new spirit. KEYWORDS: Consecrated Life, identity, mission, church, renovation. * É autor de inúmeros artígos, conferencias, exercícios, assessor de congregações e institutos de vida consagrada. Escreveu dezenas de livros; o último lançado neste ano: “ Un relato del Espíritu La vida consagrada postconciliar. Ë uma das figuras mais conhecidas da vida consagrada espanhola. Foi superior provincial e geral de sua congregação por varias vezes. Foi membro da Sagrada Congregação dos Religiosos. É assessor de inúmeros institutos de vida consagrada.
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CONCÍLIO VATICANO II E A VIDA CONSAGRADA

The Second Vatican Council and the Consecrated Life

Aquilino Bocos Merino, cmf *

RESUMO: A presente reflexão inicia localizando a história da vida da Igreja, e mais especificamente da vida religiosa antes do Concílio Vaticano II, seu contexto e suas perspectivas. Em seguida situa a vida religiosa nos documentos conciliares, ressaltando seus valores e atualidade, bem como o frescor de sua proposta, reconhecendo nela todo o valor eclesial e o caráter de “sinal claríssimo do reino dos céus”. Não sem tensões a vida religiosa evolui. O Sínodo sobre a vida e missão dos consagrados tornou-se um marco sem precedentes na história da Igreja. O autor escolheu quatro 2. pontos que retratam as grandes mudanças da vida consagrada: o espiritual; , o antropológico, o eclesiológico e o missionário. Eles se inter-relacionam e se complementam.

Passados estes cinquenta anos do Concílio, os consagrados vão descobrindo sua própria identidade carismática e tratam de vivê-la com paixão, no meio de um mundo secular, pluricultural e globalizado. Bem cedo se fez a releitura da vida religiosa, desde a LG, AG, GS e o MR como uma missão no mundo. E este novo espírito vem entusiasmando a vida consagrada.

PALAVRAS CHAVE: Vida consagrada, identidade, missão, Igreja, renovação.

ABSTRACT: This reflection starts locating, specifically, Religious Life before the second Vatican Council, its context and its perspectives. Then, it situates the Religious Life in the conciliar documents, highlighting its values and actuality, as well as the freshness of its proposal, recognizing in it the whole ecclesial value and the character of being a “clearest sign of the kingdom of heaven”. Not without tensions, the Religious Life has developed. The Synod on the life and mission of Consecrated persons became an unprecedented milestone in the history of the Church. The author chose four points that depict the major changes of the Consecrated Life: the spiritual, the anthropological, the ecclesiological and the missionary. They are interrelated and complement each other.

Along these past fifty years of the Council, Consecrated persons are discovering their own charismatic identity and try to live it with passion, in the midst of a secular, multicultural and globalized world. Early was done the rereading of Religious Life since the LG, AG, GS and MR as a mission in the world. And the Consecrated Life has been enthused by this new spirit.

KEYWORDS: Consecrated Life, identity, mission, church, renovation.

* É autor de inúmeros artígos, conferencias, exercícios, assessor de congregações e institutos de vida consagrada. Escreveu dezenas de livros; o último lançado neste ano: “Un relato del Espíritu La vida consagrada postconciliar. Ë uma das figuras mais conhecidas da vida consagrada espanhola. Foi superior provincial e geral de sua congregação por varias vezes. Foi membro da Sagrada Congregação dos Religiosos. É assessor de inúmeros institutos de vida consagrada.

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INTRODUÇÃO

Não haverá Faculdade de Teologia, Centro de Estudos Religiosos, Revista,

Editorial que não dedique neste ano uma recordação merecida ao Concílio

Vaticano II. Foi inaugurado a 11 de outubro de 1962 por João XXIII. Ao ser

perguntado pelo objetivo que queria conseguir do Concílio, abriu a janela para a

Praça de São Pedro e disse:“Isto vai fazer o Concílio: que entre um pouco de ar fresco

na Igreja”. Naquele feliz dia começava o “aggiornamento”, “a nova primavera”, “um

novo pentecostes” para a Igreja, segundo havia indicado o Papa Bom em outras

ocasiões. A Igreja iniciava uma parábola de renovação voltando “às simples e

puras linhas das origens” em liberdade e caridade .

O Concílio foi uma visita muito especial do Espírito a sua Igreja e à

humanidade . Seus efeitos perduram nos amplos horizontes abertos para o Povo

de Deus e nos caminhos traçados para sucessivas gerações. Estamos vivendo um

tempo de graça. Deus visitou seu povo. O Concílio continua sendo jovem e atual

pela novidade que imprime o Espírito. A celebração dos 50 anos de seu começo

nos move a todos entre a memória e a esperança. Suscitará alegres recordações

e motivos para a admiração e o compromisso porque, quanto mais se conhece

sua preparação, seu desenvolvimento e sua aceitação, mais se aprecia o dom de

Deus. Permanece como constante convite à conversão e a prosseguir em suas

intuições e propostas.

A todo o Povo de Deus se lhe oferece uma belíssima oportunidade para

adentrar-se na mística do Concílio e continuar a corrente de abertura, diálogo,

discernimento e construção da família dos filhos de Deus. Os religiosos aderem a

esta celebração com gratidão, lucidez crítica e confiança1.

I. ANTECEDENTES

Ao final da década dos anos cinquenta, as vocações religiosas e sacerdotais

eram abundantes. Todas as formas de vida cristã gozavam de estabilidade.

Destaco esta palavra porque parecera que a serenidade e a ordem eram valores

adquiridos. Porém o certo é que já emergiam mudanças em diversas frentes do

1 Sobre a vida religiosa e sua renovação postconciliar tem-se publicado muitas obras e não

poucos artigos. SANTIAGO M. GONZÁLEZ, (ED), Los frutos do Cambio. Balance da renovação da vida consagrada. PCl, Madrid, 2006. AA.VV., Aportes da vida religiosa a a teologia latinoamericana y do

Caribe. Hacia el futuro. Memorias do Congreso CLAR 50 años, Memorias Clar, Bogotá, 2009. JOSÉ

ROVIRA: a vida consagrada hoy. Renovação. Desafios. Vitalidade . PCl, Madrid, 2011. AQUILINO BOCOS

MERINO, Un relato do Espírito, a vida consagrada postconciliar, PCl, Madrid, 2011. S.P. ARNOLD, ¿A dónde vamos? Una teologia da vida consagrada para un tiempo de crisis y esperanza, Paulinas,

Lima, 2012. Quase todas as revistas de vida religiosa têm dedicado ou estão dedicando números monográficos sobre o Concilio e a vida consagrada.

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pensamento, das ciências humanas, da política, da economia. No interior da vida

religiosa, durante muitos anos imperaram os princípios da tradição e da norma

estabelecida, que davam uma segura continuidade . Havia contribuído para isso a

solida formação na sobriedade, a disciplina, a humildade, a obediência e o estudo.

Toda normativa, do instituto ou da Igreja, era aceita sem discussão. As práticas

de piedade eram devocionais e o estilo de vida estava marcado pela ascética.

As comunidades se regiam pela uniformidade, ao ritmo de horários e costumes

inalteráveis. Formava-se para a integração no grupo e para levar adiante as obras

próprias, que gozavam de prestigio pela qualidade de seus serviços. Os leigos

que trabalhavam nelas eram colaboradores contratados.

Os centros de formação estavam cheios. As inquietudes giravam mais

sobre a formação e a condução de tanta energia que sobre qualquer outro

aspecto da vida religiosa. Tudo quanto aparecia como novidade influenciava

a juventude que buscava mais liberdade, autodeterminação, especialização e

maior inserção nas realidades sofredoras da sociedade. Notava-se a passagem

da sociedade rural para a industrial e os imperativos da razão tornavam

ostensivos o peso da modernidade. Entrecruzavam-se, por um lado, as correntes

de pensamento personalista, existencialista, vitalista e historicista e, por outro,

começavam a ser frequentados os mestres da suspeita (Marx, Nietzsche e Freud)

e discípulos. Abriam-se novas perspectivas desde as emergentes espiritualidade

, liturgia, ecumenismo, bíblia e teologia. Os movimentos culturais propiciavam

outra forma de ver o homem e sua relação com Deus e com o mundo. Daí que

se ressaltavam as palavras como: busca, abertura, inovação, promoção, cambio,

renovação e progresso.

Começou a questionar-se a compreensão da vida religiosa como estado

de perfeição. Tanto os movimentos leigos como os sacerdotais, rechaçavam

a teologia das duas vias: a dos preceitos e a dos conselhos evangélicos. A vida

religiosa começou a ver-se minada em sua posição privilegiada para alcançar

a perfeição. Tinha-se começado a ensaiar outra forma de celebrar o mistério

pascal, outro modo de entender a vocação desde a gratuidade, a liberdade e a

responsabilidade 2.

“Testemunhas da cidade de Deus” é o título do livro do jesuíta P. René

Carpentier. De alguma maneira foi o indicador da mudança de uma compreensão

da vida religiosa desde o direito e a moral até a teologia. Até então, geralmente,

2 Em muitas comunidades se liam os livros de C. Marmión, O. Casel, R. Guardini, K. Adam, J. Guitton, J. Leclercq, R. Garrigou-Lagrange, A. Stolz. Th. Merton, Y. M. Congar, etc. Pouco antes do

Concilio se estenderam as “fraternidade s operárias”e as cartas do P. Voillaume, recolhidas no «Au coeur des masses». Começavam a difundir-se as orientações espirituais do Prado (A. Ancel). No

Natal desse mesmo ano recebia o premio Nobel da Paz um “frade” dominicâno: o P. Dominique Georges Pire.

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nos noviciados e casas de formação, os livros mais procurados eram o Catecismo

dos votos do P. Pierre Cotel e os comentários jurídico-morais em torno aos

conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência e a vida comum.

Quando apareceu João XXIII estávamos há oito anos de grande

congresso de renovação, celebrado em Roma em 1950, qualificado por Pio XII

de acontecimento extraordinário nunca visto até então, no que o Pontífice

demonstrou seu grande interesse pela “acomodada renovação” da vida e do

apostolado dos religiosos.

Logo se abriram canais de colaboração entre os Institutos religiosos

através das Uniões de Superiores Gerais, Confederações e Federações. Surgiam

do espírito corporativo marcado pela encíclica Mystici Corporis.

II. O CONCÍLIO E A RENOVAÇÃO DA VIDA RELIGIOSA

1. O acontecimento e os textos

Os germens de novidade se concentraram, se harmonizaram e

dinamizaram, sob a ação do Espírito, para que o Povo de Deus iniciasse seu

caminho de renovação. Quarenta e sete anos após sua conclusão, surpreende

que os documentos conservem um frescor tão sedutor. Hoje as novas gerações

entram em contato com o Concílio Vaticano II através da história, dos textos, das

análises e dos comentários. Propõe-se voltar às origens da vida cristã: à Palavra de

Deus, ao mistério de Cristo e da Igreja e a missão salvadora. Incitou-se a afrontar

responsavelmente os desafios de um mundo complexo, cheio de ansiedade e de

esperança por sua vez. Ensinou-se, desde a pedagogia divina, a propor e não

a impor, a defender a causa de Deus e os direitos dos pobres e a caminhar no

Espírito rumo à comunhão de todos os homens.

2. A proposta conciliar sobre a vida religiosa

Neste contexto, o Concílio pediu à vida religiosa reviver suas origens

carismáticas e assumir o seguimento de Jesus segundo o Evangelho; a participar

na vida da Igreja, a empenhar-nos na causa dos mais necessitados e a potencializar

a audácia missionária. É fácil falar sobre a história dos textos relativos à vida

religiosa, sobretudo na Constituição Lumen gentium (LG) e no Decreto Perfectae

caritatis (PC). Outros dos decretos importantes são Christus Dominus e Ad Gentes.

Porém também os outros documentos falam aos religiosos.

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Foi de transcendental importância a inclusão de um capítulo dedicado

aos religiosos na Constituição dogmática sobre a Igreja depois haver falado da

vocação universal à santidade. Máxime, num momento em que não faltavam

aqueles que se perguntavam se era oportuno em nosso tempo o estado religioso

ou chegavam a duvidar de sua legitimidade 3. O Concílio afirma a origem divina da

vida religiosa e sua pertença de maneira indiscutível à vida e santidade da Igreja

(LG 44). A vida religiosa é uma realidade na Igreja e da Igreja, toda ela chamada

à santidade 4. É parte integrante do Povo de Deus e, por isso mesmo, não é uma

realidade isolada. Fala-se em correlação ao ministério ordenado e com o laicato.

Reconhecida a vida consagrada em todo seu valor eclesial e seu caráter

de“signo claríssimo do reino dos céus”(PC 1), os Padres conciliares estabeleceram

um programa para sua renovação. Os princípios e critérios ficaram expressos

nos nºs. 2 e 3 do decreto Perfectae caritatis. Nós nos acostumamos tanto a ler

e refletir sobre eles, que já não nos surpreende a profundidade e maturidade

que encerram. Quando se fazia a proposta de renovação para a vida religiosa, já

estavam aprovadas ou muito avançadas as quatro grandes constituições: sobre a

Igreja, liturgia, divina revelação e Igreja e o mundo contemporâneo.

3. Recepção, processo de renovação e múltiplas ajudas

A recepção do Concílio não foi igual em todos os setores da Igreja nem em

todos os continentes. Tampouco o foi para todos os Institutos religiosos. |A inicial

experiência de gozo e esperança era notória na imensa maioria dos membros

do Povo de Deus, porém ficou empanada pelas turbulências sociais e culturais

nos povos (pensemos no maio francês) e alguns fatos eclesiais, entre os quais

cabe destacar a reação ante a Humanae vitae. Foi notória a luta entre a fascinação

pelo novo e o mito da imutabilidade . Nos primeiros anos pós-conciliares, ainda

admitindo a autoridade do Concílio, tiveram maior influencia as controvérsias

dos teólogos que os conteúdos doutrinais. Não se estudou com a devida atenção

“toda”a doutrina conciliar. Emergiu o pluralismo teológico e foram muito diversas

as propostas pastorais. A vida religiosa refletiu esta simultânea euforia generalizada

e os não poucos lamentos. As tensões na Igreja e na vida religiosa produziram

suas vítimas. Nisso tudo estava o modo diversificado de pensar, de interpretar e

de atuar na Igreja e no mundo. Um mundo em transformação acelerada era caldo

3 Cf. R. SCHULTE, a vida religiosa como signo, em G. BARAUNA (Ed.), em “La Iglesia do Vaticano II”, Juam Flors, Barcelona, 1965, pp. 1091-1092.

4 Implícitamente se exclui a opinião dos que consideravam a vida religiosa como uma estrutura de origem humana, intermediária entre os dois gêneros de vida assinalados por Graciano: hie-

rarquia e laicato.

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de cultivo para a liberalização de tudo o que fora ordem estabelecida e suscitar

a contestação.

As fontes evangélicas e as leis de renovação foram bem acolhidas pelos

religiosos. O ponto crucial onde começou a prova para a vida religiosa foi a práxis

da“suficiente e prudente experiência” (PC 4). O Concílio a cria necessária. Aqueles

que viveram incorretamente as experiências, acabaram se evadindo. Outros,

diante das primeiras dificuldades, tentaram dar marcha ré causando verdadeiras

frustrações. A maioria seguiu a via do discernimento, em docilidade ao Espírito,

ao magistério da Igreja e ao conselho dos experts, e saiu fortalecida em sua

vocação consagrada. Dão conta disso as avaliações dos sucessivos capítulos

gerais e provinciais e das muitas assembleias de revisão.

No caminho de renovação houve coragem e risco. Os religiosos podemos

ter errado em alguns momentos ou, acaso, ter sido infiéis em outros, porém o

resultado tem sido positivo. Assim o avaliou João Paulo II na mensagem de 2 de

fevereiro de 2005. Provavelmente os dados mais favoráveis são: a compreensão

da vida consagrada, o estudo dos carismas fundacionais, a elaboração das novas

constituições e a expansão missionária. Não temos caminhado sós. Quem

pode esquecer a Evangelica testificatio (Pablo VI), a Vita consecrata (Juam Pablo

II) o os discursos de Bento XVI? Assim mesmo tem-se que agradecer os densos

documentos da Congregação para os Institutos religiosos e sociedades de vida

apostólica, episcopados, conferências de religiosos, revistas e publicações,

teólogos, homens e mulheres de governo e peritos em formação, etc., os quais

nos ajudaram muito.

A intensa vida sinodal da Igreja nestes vinte últimos anos tem aberto

horizontes e há suscitado novos compromissos na vida consagrada para com os

leigos, sacerdotes e bispos. Os religiosos tem intensificado a colaboração com os

leigos e tem partilhado o carisma com grande incidência na espiritualidade e

na missão. Tem crescido o voluntariado e os associados. O Sínodo sobre a vida

e missão dos consagrados é um marco sem precedentes na história da Igreja. Os

Sínodos continentais têm promovido o anúncio de Jesus Cristo e evangelho e

tem fomentado a unidade e a pluralidade da missão eclesial. Os congressos

internacionais de consagrados celebrados em Roma (1993, 1997 e 2004) têm

revelado o elevado número de sinais novos de vida religiosa nos distintos

continentes.

III. PONTOS CARDIAIS NA RENOVAÇÃO

Quando se analisa a mudança na vida religiosa, surgem muitos pontos de

vista e todos eles incompletos. É difícil sintetizar em poucas palavras um processo

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tão complexo em estímulos e reações e tão rico em matizes pelas múltiplas

referencias o implicações sociais, eclesiais, carismáticas, etc. Por outro lado, é fácil

encontrar pareceres contrapostos procedentes de experiências de signo diverso.

Escolhi quatro pontos que considero retratem os grandes giros da

vida consagrada: o espiritual, o antropológico, o eclesiológico e o missionário.

Eles se inter-relacionam e se complementam. No transfundo ficam aquelas

perguntas sempre abertas ao longo do processo de renovação: Para onde nos

leva o Espírito? Que quer Deus de nós? Que nos pede a Igreja? Que é o que mais

necessita nosso mundo? Perguntas que se fazem as sucessivas gerações afetadas

pelo desenvolvimento econômico, pela transição política, pela transformação

cultural e religiosa e pela influência da onda da secularização e da pós-

modernidade . Subjazem as tensões e os esforços para superar as dialéticas

entre carisma e instituição, liberdade e obediência, oração e ação, cultura e

culturas, Igreja universal e Igreja particular, comunidade e indivíduo, igualdade

e diferença, masculino e feminino, unidade e pluralismo, etc. Estão latentes as

grandes opções operativas que, sucessivamente, vão assumindo os institutos no

discernimento dos sinais dos tempos e dos lugares. E uma apreciação: que as

mulheres consagradas têm contribuído muito decisivamente à renovação da vida

religiosa e da Igreja.

1. Espiritualidade da nova aliança

Ainda que os religiosos tenhamos posto em primeiro lugar o princípio

da vida espiritual para a renovação, sou depois de sofrer as intensas crises de

identidade , de pertença eclesial e comunitária e de disponibilidade missionária,

é que nos demos conta do sentido profundo e do alcance totalizador deste

princípio. Agora somos mais conscientes da necessidade de por a pessoa de

Jesus no centro de nossa vida e missão e apreciamos melhor nossa consagração

como selo da aliança do amor que Deus nos tem. O Sínodo sobre a vida consagrada

destacou a espiritualidade como o primeiro desafio. Ecos do mesmo são os

convites a voltar às origens carismáticas, recuperar o essencial, viver em fidelidade

criativa, avivar a paixão por Cristo e pela humanidade , etc. Esta volta às raízes

tem levado a enfatizar a sede de Deus e a viver como discípulos, testemunhas

e missionários (Aparecida). A docilidade à ação do Espírito é o melhor antídoto

ante qualquer assomo de pelagianismo.

Com o Concílio se abriu uma nova era na espiritualidade . Sua forma

de conceber o homem no mundo e na história, a reflexão sobre o mistério do

Reino e da Igreja, o reconhecimento do protagonismo do Espírito Santo nela, ou

o destaque dado à Palavra de Deus e à Liturgia, o apreço à presença de Maria

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na história da salvação, a sensibilidade manifestada a favor de as culturas e o

compromisso com os mais pobres e excluídos da sociedade, o impulso dado à

vida missionária e ao ecumenismo, etc., são elementos que possibilitam uma

nova compreensão da vida cristã e tem animado a vivenciá-la de forma mais

dinâmica e integradora; encarnada em as culturas e sempre aberta a os desafios

de cada momento histórico. A espiritualidade neste momento tem especiais

implicações e ressonâncias comunitárias e de compromisso com a justiça . O

itinerário é marcado pelo Espírito, que é quem promove no cristão o seguimento

de Jesus, a vivencia do Mistério Pascal, particularmente na Eucaristia e a práxis

das Bem-aventuranças, da contemplação e da oração, do combate espiritual e da

ascese. As exigências não vêm do exterior, antes do amor com o que Deus nos faz

um povo santo e de sua propriedade.

A espiritualidade não é genérica nem abstrata. O teólogo Von Balthasar

chegou a dizer que a espiritualidade é o rosto subjetivo da teologia. De fato,

após um período de reflexão, surge outro de práxis, de vivência do reflexionado.

E assim, estamos vendo que o desenvolvimento da teologia das formas de

vida cristã e da inculturação da fé e do carisma, está dando um perfil preciso

à espiritualidade , ressaltando a necessidade de compromisso nos diversos

contextos culturais e sociais. A espiritualidade está apontando para a comunhão

que adquire valor simbólico, profético e escatológico na missão evangelizadora e

humanizadora da Igreja. Situa-nos entre o mistério das origens e a meta à que

aspiramos.

Para a espiritualidade da vida consagrada tem sido decisiva a volta

aos Fundadores. Sua presença, sua memória, seus escritos e seu estilo de vida

e de apostolado fizeram com que os religiosos vissem seus Institutos, aos que

consideravam instituições societárias, como comunidades de pessoas animadas

por um mesmo Espírito, sempre em caminho e abertas a todos os desafios. São

os fundadores os que nos têm ensinado o caminho de espiritualidade com sua

peculiar forma de seguir a Jesus, de viver em Jesus segundo o Espírito, quem em

cada um dos momentos e em cada circunstancia da história nos impele a viver

em plenitude a filiação, a fraternidade e a missão. Os fundadores nos introduzem

na configuração com o Jesus pobre, totalmente dedicado às coisas do Padre,

compassivo e misericordioso, solícito pelos mais necessitados. Têm nos ensinado

a exercer a profecia e a promover a dignidade humana. Com seu exemplo e

doutrina ajudam a integrar as dinâmicas básicas e os meios adequados para o

crescimento. O elevado número de beatificações e canonizações nestes últimos

trinta anos, em grande parte fundadoras e fundadores, tem estimulado a vida de

santidade nos Institutos, pois tem sido ocasião para avivar a consciência de sua

presença na comunidade congregacional e de que eles caminham para frente

em sua vida e serviço.

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Muitos outros fios tecem esta espiritualidade de nova aliança: o

testemunho martirial, o laicato e, em especial, o papel da mulher; os pobres e

os direitos humanos; a justiça, a paz e a salvaguarda da criação; os movimentos

comunitários, o diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural, etc.

2. Giro antropológico e a mulher consagrada

No início dos anos setenta houve quem considerava que as três grandes

tendências que marcavam a evolução da vida consagrada eram a humanização,

a secularização e aprofundamento religioso e evangelização. Porém, ao querer

sinalar o núcleo de esta evolução, dizia que esta se nutre e recebe apoio da nova

experiência da existência humana que atua nos outros aspectos.

A estas alturas podemos dizer que a pessoa tem sido o valor mais

apreciado. Três fatores têm contribuído para isso: 1) o desenvolvimento das ciências

humanas: antropologia, psicologia e sociologia; 2) a compreensão teológica da

pessoa como imagem da Trindade; 3) o reconhecimento das liberdades e direitos

dos povos, culturas e religiões. Dentro de as grandes correntes de pensamento e

de as influencias sócio-religiosas e culturais, vamos nos encontrando com grandes

questões que tem afetado em cheio à vivencia da consagração, dos votos, da vida

fraterna. Recordemos os grandes desafios da secularização, o sexismo, a autonomia

e a liberação, a pobreza no mundo, as injustiças e a violência, a cultura da morte, a

práxis de uma economia selvagem, o individualismo hedonista e o comunitarismo

asfixiante. A resposta foi sendo dada a partir de diferentes frentes e como sinal

dela resta uma linguagem que sinaliza palavras como: autonomia, liberdade,

fraternidade , diálogo, solidariedade, participação, história, futuro, gênero, cultura,

pluralismo, encontro, compromisso, fidelidade , autenticidade , etc. Como dizia

Rahner, “cada época tem uma serie de conceitos chave que sintetizam sua própria

tarefa e seus anelos”. Como também podemos dizer que cada continente tem

suas palavras e conceitos que são chaves para desvelar sua específica situação.

Tem sido notória a passagem da fuga do mundo à inserção no mundo

com o consequente interesse por todo o ser humano e todo o criado. Nada do

que sucede aos povos e no planeta é alheio aos religiosos. As calamidade s, as

pobrezas e enfermidade s, as angustias e decepções dos homens e mulheres lhes

afetam. A opção pelos pobres e a experiência de vida entre os marginados tem feito

repensar a forma de ver a vida, o estilo de comportamento e a localização de seus

serviços.

Os consagrados e as consagradas querem ser reconhecidos e levados

a sério em sua plena condição humana. A eleição dos conselhos evangélicos de

castidade, pobreza e obediência, “longe de ser um empobrecimento dos valores

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autenticamente humanos, se apresenta muito mais como uma transfiguração dos

mesmos”. (…)“Aqueles que seguem os conselhos evangélicos, ao mesmo tempo que

buscam a própria santificação, propõem, por assim dizer, uma «terapia espiritual»

para a humanidade , posto que rechaçam a idolatria das criaturas e tornam visível

de algum modo o Deus vivente. A vida consagrada, especialmente nos momentos

de dificuldade, é uma bênção para a vida humana e mesmo para a vida eclesial”

(VC 87).

À medida que se tem ressaltado a visão da pessoa como ser em relação,

sujeito livre e responsável, vai-se refazendo a vida comunitária, a formação, o

apostolado, o governo, a administração de bens. Cada vez contam mais o diálogo,

a participação e o trabalho em equipe. No documento sobre “Orientações sobre

a formação nos Institutos religiosos” (1990) se expressa a justa preocupação pela

formação integral da pessoa, sem a qual é impossível construir uma vida religiosa

madura e significativa. O formando aprende a conjugar os verbos que expressam a

vida e missão desde o “nós” e, assim, cultiva a pertença, fomenta o testemunho da

fraternidade e o leva a abraçar com entusiasmo o trabalho apostólico.

Desejosos de estar na vanguarda da missão evangelizadora, os religiosos

optaram por privilegiar a promoção humana, a inserção no mundo do trabalho,

com a devida profissionalização, e a participação na política. Foram iluminadoras

as orientações do documento, todavia de grande atualidade , Religiosos e promoção

humana (1980). Mais tarde, diante da degradação das relações funcionais, que

derivou para o individualismo, surgiu a sede de relações mais genuinamente

fraternas em as comunidade s religiosas. Isto motivou uma reflexão para fazer

ver que a comunidade é, antes de tudo, um dom que se deve acolher, celebrar e

expressar; é lugar onde que se lega a ser irmãos e é lugar e sujeito da missão (A

vida fraterna em comunidade , 1994). O futuro das comunidades renovadas, sinais de

comunhão e estímulo para a fraternidade universal, depende da maturidade das

pessoas que as integram. O desafio da globalização e da pós-modernidade , com tudo

o que comporta de provisoriedade (“liquidez”) nas relações, requer um cuidadoso

exercício da liberdade e um maior discernimento para integrar contrastes: o local e

o mundial, o individual e o coletivo, o feminino e o masculino.

Três quartas partes das pessoas consagradas são mulheres. Estas, com as

mulheres de seu tempo, tem afirmado e oferecido os valores de sua feminidade

. Uma constatação tão elementar atualmente tem um eco muito diferente do

que poderia ter nos anos cinquenta. Por diferentes motivos foi crescendo o

reconhecimento do papel e da missão da mulher consagrada na sociedade e na

Igreja, ainda que permaneçam metas a serem alcançadas. Acabou o patriarcalismo.

Já não podemos falar de dignidade da pessoa sem destacar tanto a autonomia

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como a reciprocidade dos gêneros. São iluminadores os estudos sobre a igualdade,

a diferença e a inter-relação. Na vida consagrada contamos com muitas e ricas

contribuições em chave feminina. Os elementos essenciais (votos e comunidade)

e as dinâmicas de formação e governo, vistos desde a ótica feminina, adquirem

outras matizes. As mulheres consagradas, com sua dedicação sem limites e sua

alegria, são sinal da ternura de Deus para com a humanidade . Através delas

melhoram as relações humanas na Igreja e na vida consagrada. É difícil pensar

projetos de vida e missão na Igreja sem contar com as mulheres consagradas. É

maravilhosa sua colaboração na formação. Seu zelo apostólico, sua capacidade de

entrega aos mais pobres e necessitados, sua sensibilidade para com os enfermos

e oprimidos, tornam insubstituíveis suas contribuições na Igreja e na sociedade.

3. Sendo e fazendo a Igreja

Outro dos giros dados pelos religiosos tem sido, sem dúvida, o

eclesiológico. A consciência de ser Igreja desde suas origens, e não uma simples

estrutura institucional sobreposta, tem ficado bastante clara ao largo da história.

Sou quando o direito tem prevalecido sobre a teologia e se obscureceu esta em

favor da instituição e organização eclesial, chega-se a postergar a eclesialidade

da vida consagrada. Em seus longos anos de pontificado, João Paulo II defendeu

reiteradamente a eclesialidade da vida consagrada. Chegou a dizer: “Jesus

mesmo, chamando algumas pessoas a deixar tudo para seguí-lo, inaugurou este

gênero de vida que, sob a ação do Espírito, se desenvolveu progressivamente ao

longo dos séculos nas diversas formas da vida consagrada. O conceito de uma Igreja

formada unicamente por ministros sagrados e leigos não corresponde, portanto, às

intenções de seu divino Fundador tal e como resulta dos Evangelhos e dos demais

escritos neotestamentarios” (VC 29).

Os religiosos mudaram não só em sua forma de pensar, mas também na

de agir. No seu conjunto, tem maior consciência de sua pertença à Igreja e estão

contribuindo mais generosamente em sua missão evangelizadora. Esta afirmação

não é gratuita. Pode-se verificar com a simples comparação entre o modo de levar

as obras apostólicas no final dos anos cinquenta e as atuais planificações das

atividades catequéticas, educativas, sanitárias e sociais, inspiradas e orientadas

desde o Magistério pontifício e da respectiva Conferencia episcopal. Hoje

a Igreja é compreendida e vivida como “communio personarum”, como uma

comunidade de carismas e ministérios, na qual tem sua missão específica os

Pastores, os ministros ordenados, os leigos e os consagrados. Daí a importância

das relações com os bispos e com os leigos. Cabe esperar que as relações entre

Bispos e Religiosos cheguem a ser mais distendidas e harmoniosas e prossiga

fomentando a cooperação com os leigo. Os problemas concretos que emergem

34

no dia a dia não podem obscurecer o horizonte que temos marcado: fazer da

Igreja casa e escola de comunhão (NMI, 43).

Talvez o ponto mais instigante seja a harmonia entre o universal e o

local na pertença e serviço à Igreja. Os religiosos carregam dentro de sua

vocação a referencia à Igreja universal, porém hão de viver e agir na Igreja local.

Os conflitos mais comuns derivam da falta de compreensão ou de tato neste

ponto. Não é um problema exclusivo dos religiosos, pois acontece o mesmo

com outras instituições ou associações de fiéis e movimentos. Continua

sendo uma questão pendente nos seminários e nas casas de formação a

Igreja particular e a vida religiosa. Quantos eclesiólogos tem incluído em seus

tratados a vida consagrada à luz dos documentos da Igreja? Quantos religiosos

terão lido a exortação pós-sinodal Pastores gregis?

A eclesiologia das igrejas particulares e da colegialidade episcopal

tem influenciado na centralização e descentralização da Igreja e dos

institutos de vida consagrada. Quanto aos religiosos, a influência se faz notar,

especialmente, no governo e na ação pastoral.

Há outros testes de fiabilidade da eclesialidade dos religiosos difíceis

de aplicar, porém que aí estão como sinais de que sua vida e seu trabalho

estão transidos de amor à Igreja. Penso em tanta gente que vive gozosamente

sua vocação, que transmitem com alegria o evangelho do Reino, que sofrem

com tudo aquilo que faz sofrer ao Papa, aos Pastores e à comunidade cristã,

que tem à flor de pele mensagens de esperança, que sabem suportar as

contrariedades com paciência, que aceitam a enfermidade e a passagem

dos anos com serenidade e confiança, que olham a morte com aquela paz

de quem sabe que Jesus e Maria veem ao seu encontro. Sim, a eclesialidade

se proba no dia a dia da fé, do amor e da esperança. Muitas vezes tenho visto

religiosas e religiosos viver e trabalhar em situações infra-humanas, correndo

a mesma sorte dos mais pobres, e tenho dado graças por sua generosa

entrega, sua capacidade de sacrifício, seu amor à gente pobre e excluída e

seu desejo de criar uma comunidade que ore, viva a fraternidade e disponha

de meios para uma educação elementar e um serviço básico de saúde.

4. De coração na missão evangelizadora

Os institutos de vida apostólica, dos que basicamente estamos falando,

colocaram no pós- concílio um grandíssimo interesse em reafirmar a unidade

de vida dos religiosos. Tudo isso deve estar imbuído de Espírito apostólico, e

toda a ação apostólica, informada de Espírito religioso (cf. PC 8). Bem cedo se

fez a releitura da missão da vida religiosa desde a LG, AG, GS e o MR. O Sínodo

35

sobre a evangelização do mundo contemporâneo, tirou a vida religiosa da

crise de intimismo e de disponibilidade por ter-se metido em seu mundo

interior. Ajudaram também Puebla e Santo Domingo. Outros dois golpes

vieram com a encíclica Redemptoris missio (1991) e os Sínodos continentais.

A missão começa a considerar-se como epifania do mistério de amor, que é

a vida da Trindade, e se destacam como elementos essenciais a gratuidade,

a acolhida, a contemplação, a oração, o sofrimento e a compaixão orientados,

por sua vez, à gloria da Trindade. A missão não é só ação, senão também

paixão. No centro da missão está Jesus, o Filho, o ungido por o Espírito, que

proclamou o Reino de Deus e aparece a Igreja como sacramento e servidora

de este Reino. Sem deixar de destacar que o protagonismo pertence ao

Espírito Santo, a missão adquire outros nomes correlacionados entre si, como

anuncio, conversão, testemunho , diálogo, justiça , libertação, inculturação e

solidariedade .

As grandes opções da vida religiosa no exercício da missão tem sido:

a opção pelos pobres, que estava incoada no Concílio e ficou muito explícita

a partir de Medellín; a opção pela “missio ad gentes”, que aponta para a Ásia,

África e o Leste Europeu; e a opção pela fraternidade universal, que parte

da “civilização do amor” e da “espiritualidade de comunhão”. Muitos dos

deslocamentos dos religiosos para lugares de novas pobrezas e muitas das

atividades que criam laços, fazem pontes e estabelecem vínculos solidários,

só são compreensíveis a partir destas três grandes opções sucessivas e, por

sua vez, interdependentes.

A atenção prestada à missão tem suscitado abertura, nova sensibilidade

ante o mais urgente, tem dado sentido e estímulo à espiritualidade , ao

governo, à formação e à gestão de bens, que se traduz em solidariedade ,

e tem provocado a seleção e revisão de presenças e serviços. A missão está

aglutinando, em torno ao carisma fundacional, os leigos e a quantos cooperam

na transformação do mundo segundo o desígnio de Deus; está promovendo

a colaboração inter-congregacional; e está motivando a reorganização dos

Institutos ou a reestruturação das obras. É verdade que esta reorganização não

se faz unicamente por motivos apostólicos, senão também como resultado da

precariedade de forças em ativo. Porém não se pode considerar como mera

estratégia humana. Os religiosos vão se dando conta do momento em que se

encontram e querem reorganizar-se para viver mais evangelicamente e servir

melhora as Igrejas. Este duplo objetivo só pode ser logrado com uma forte

dose de espiritualidade , purificação e despojamento. A renovação, pedida

no n. 3 do PC, continua e se demostra neste nobre intento.

36

IV. NESTE MOMENTO DA VIDA CONSAGRADA

1. Nem tão brilhante, nem tão obscuro

Os quatro pontos indicados permitem entrever a mudança que ocorreu

na vida religiosa, ao menos em sua compreensão e como tendência de

comportamento. Porque nem tudo tem sido questão de ideias. É difícil medir

quanto tem havido, durante o processo de renovação recorrido, de conversão a

Jesus Cristo e a sua missão, de oração e discernimento, de renúncias e novos

projetos, de compromissos e retificações; em definitiva, de experiência de vida

segundo o Espírito. Não faltam mártires nem homens e mulheres que se tenham

distinguido por sua santidade e que têm incoados os processos de beatificação.

Ao longo destes cinquenta anos foram reconhecidos novos institutos de vida

consagrada. Sem citar todos os ganhos alcançados, que são amostras de que

a vida religiosa está viva e tem futuro, convém destacar que os religiosos se

recolocaram na Igreja abandonando toda tentativa de concorrer com os outros

cristãos e procuram firmar-se na fraternidade e na solidariedade. Sabe-se, por sua

vez, que são diferentes e complementares na Igreja. Vão descobrindo sua própria

identidade carismática e tratam de vivê-la com paixão, porém sem orgulho, no

meio de um mundo secular, pluricultural e globalizado. O momento atual lhes

faz pensar, sopesar e olhar para frente com confiança. Não se tem percorrido o

caminho em vão.

Se comparamos os números dos membros da vida consagrada com os

de 1958, o decréscimo tem sido notório. Os abandonos da vida religiosa foram

numerosos e são muito poucos os que decidem ingresar nela. Estes datos e o fato

de que não faltam vozes dissonantes com o magistério da Igreja e que algunos

parecen ser francotiradores na ação pastoral, fazem com que alguns ponham em

dúvida o processo de renovação da vida consagrada e seus frutos. Mais ainda, se

perguntam se as tradicionais formas de vida religiosa esgotaram seu ciclo de vida

e se não devem surgir outros modos de expressar os compromissos evangélicos

pelo Reino. A isto, já respondeu João Paulo II: “a vida consagrada não só tem

desempenhado no passado um papel de ajuda e apoio à Igreja, mas igualmente

é um dom precioso e necessário também para o presente e o futuro do povo de

Deus (…). Poderá haver históricamente uma ulterior variedade de formas. Porém

não mudará a substância de uma opção que se manifesta no radicalismo do dom de

si mesmo por amor ao Senhor Jesus e, nele, a cada membro da familia humana”(VC

3). Tem-se dito que os religiosos tem sofrido. Muito, porém do que realmente lhes

dói não é a incomprensão, nem a marginalização, mas a superação e a falsificação

de suas origens e de suas fidelidades.

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Numa ponderada consideração sobre a realidade da vida religiosa, é elementar reconhecer a situação de precariedade e debilidade progressiva que vamos tendo e tem-se que admitir fatos negativos que se devem afrontar com responsabilidade e corrigir com caridade. Não obstante, convem notar que não é a lógica da utilidade ou da eficacia, mas a da gratuidade e da gratidão, a do mistério pascal e a esperança, a da fidelidade e a generosidade , a que se teria de empregar para julgar com realismo a qualidade da vida consagrada. A Palavra de Deus faz referência a que não são os carros e cavalos os que dão a força, mas antes o poder do Senhor. Os religiosos têm se questionado sobre sua fidelidade ao Senhor e à Igreja, sobre a falta de vocações, têm trabalhado intensamente na pastoral vocacional e têm-se autoculpabilizado, quiças mais além da coenta, por não ter atualmente mais vocações.

Devemos ser realistas, é verdade. Porém não basta ver tudo negativo. É realista quem assume a realidade em sua totalidade e mantem a convicção de que esta é emergente, rica em possibilidades e generosa em oportunidades para afirmar outra perspectiva de futuro não menos valiosa. Quantos se perguntam porquê os religiosos, em sua imensa maioria, mesmo sabendo das dificuldades que atravessam, se sentem felizes em sua vocação? Sabem donde vêm e para onde vão. Desde a experiencia acumulada, ao longo da história5, recomendam seu destino ao Senhor da Vida. Os religiosos estão habituados à revisão pessoal, comunitária e congregacional. Captam o que vale a curto e longo prazo, aceitam os correctivos no caminhar e sorriem quando lhes prognosticam a data de sua estinção 6. Também é realismo contar com que a vida consagrada, por seu carisma e missão, leva em suas entranhas a universalidade e a capacidade de percorrer a via da interculturalidade . Não vão faltar religiosos que saiam de seus países, onde há vocações, e vão a outros onde se lhes necessita.

2. “Ab ipso ferro” e despertando a aurora

Frei Luis de León, em seu escudo, nos empresta algo similar para definir hoje o momento que atravessamos: “Ab ipso ferro”, que ele toma de Horácio, quando diz: “como encina porfazha destrozada/ (del Álgido, feraz en fronda espesa),/ en cada desgarrón, do hierro mismo,/ recibe nuevos bríos, savia nueva”7.A diminuição

e a precariedade não são, em si, prenúncio de morte . A poda contribui no fortalecimento das plantas. Da ferida, do despojamento e da purificação costuma surgir nova vida. Depende da resposta que damos ao momento presente. O mysterium crucis abre a porta para a transfiguração, para a ressurreição.

5 Cf. L. MOULIN, El mundo viviente de los religiosos, E. Nacional, Madrid, 1966. R, HOSTIE, Vida y morte

de as órdenes religiosas, DDB, Bilbao, 1973. 6 Um sinal de vida é que de 1984 a 2006 foram aprovados 216 Institutos de vida consagrada de

direito diocesano e 154 receberam a aprovação pontificia. 7 HORACIO, Odas-Epodos, 4,4. Espasa Calpe, Madrid, 1967, p. 131.

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Não é o ocaso, sim a aurora o que se avista no horizonte da vida religiosa

atual. Porém, é preciso despertar a aurora. Os religiosos sabem que se encontram num inverno, Todavia, o inverno não é a morte, mas antes a preparação para uma

vida pujante e vigorosa. Sabem que a noite está passando e que a aurora se

aproxima. Os versículos 2 e 3 do salmo 107 expressam muito bem os sentimentos que brotam de seu coração: “Deus meu, meu coração está firme, para ti cantarei

e tocarei, gloria mia. Desperta, citara e harpa; despertarei a aurora”. Como o

salmista, o religioso se sente animado para despertar a aurora. Sabe que as trevas não são capazes de sufocar a luz verdadeira. Despertar a aurora não significa

desprezarmos com o sorriso ao ver um novo dia, como se nos contentáramos em

sobreviver um dia mais tranquilos. Não. Despertar a aurora é pôr-nos todos frente à luz e a vida, a verdade e a justiça; é mostrar que há uma outra maneira de ser

homens , concidadãos, que confessam sua fé, que são sinais de fraternidade e

que entregam sua vida desinteressadamente por os demais.

A renovação da vida religiosa tem bastante semelhança com a profecia

de Ezequiel (37,1-14), que se acha inacabada. Como se nos continuasse faltando

esse último toque do Espírito para caminhar com garbo e estabelecer-nos em nosso solo, em nossa pátria e tornar-nos “povo de Deus”. Múltiplos indícios fazem

crer que o Espírito colocou no coração dos consagrados mais sede do que agua

viva, maior afã pela busca do rosto de Deus e do que sobrecarga de tensão escatológica. A resposta a tanto dom está gravada em duas palavras: “fidelidade

criativa”. A vida religiosa tem futuro quando se enfrenta com os desafios mais

radicais e não o tem quando se enreda em batalhazinhas internas ou em litígios com quem deve trabalhar para a glória de Deus.

Em nossa sociedade há um culto excessivo à aparência e se sente especial

prazer pela simulação. Foi sequestrado o pensamento serio e, longe de nos esforçar para recuperar a interioridade e a autenticidade ; estamos nos deixando

envolver pelo encanto de novas formalidades. Da chamada ao essencial que,

com tanta insistência grita de Bento XVI, só resta um eco longínquo. Não chega a comprometer a vida. Este é um de nossos desafios: oferecer autenticidade e

ultimidade. Não garantimos o futuro da vida religiosa desde a ligeireza no uso de

nossa liberdade, desde nossa rotina ou superficialidade, nem desde a aparência e o espetáculo, senão desde a coerência e a generosa entrega. Temos que perguntar-

nos se estamos respondendo aos grandes desafios do mundo contemporâneo

que progride a margem de todo vínculo religioso; que passa pelo sequestro da linguagem e pela ajuda e buscar da verdade que nos liberta e nos salva; que

vamos a inovar para superar o divórcio entre fé e cultura e para cooperar na defesa da vida e na salvaguarda da criação.

Diz-se que os religiosos abusam da profecia. Tenho a impressão de que,

se de algo há que criticar aos religiosos, é de terem-se inibido, de ser temerosos e

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pouco livres no exercício da atrevida profecia de sus fundadores. Não é bom para a Igreja que os religiosos percam a criatividade e se estanquem. Urge mostrar

que se vive desde a ultimidade escatológica. Nossa inibição pode acontecer por carência de mística e de ardente caridade apostólica; por indigencia não estudo e não análise crítica das situações culturais, sociais e políticas; e por falta de

imaginação para descobrir e oferecer indicadores do caminho segundo o Espírito. Por isso, penso que a vida religiosa precisa menos autoflagelação e mais estímulo.

A vida religiosa possui uma grande energia que a urge continuar sendo sinal

e estímulo para o Povo de Deus. É consciente da força do Reino de Deus quando Jesus diz que se parece à levadura na massa e ao grão de mostarda semeado na

terra. João Paulo II o expressava assim: “A vocação à vida consagrada no horizonte de toda a vida cristã , apesar de suas renúncias e suas provas, e mais ainda: graças a elas, é caminho «de luz», sobre o que vela o olhar do Redentor: «Levantai-vos, não

tenhais medo»” (VC 40). A vida religiosa tem futuro, se contempla, se oferece, se testemunha, se colabora, em definitiva se vive em Cristo, prega seu evangelho e… pensa menos em si mesma.

3. A mensagem de Aparecida

Uma das grandes convicções da Igreja e da vida consagrada, reafirmadas

no período pós-conciliar e confirmada em Aparecida, é que não nasceram para si mesmas, para estar voltada para dentro e para estar-se mudando continuamente. Seguindo a Jesus, homem para os demais, a Igreja e a vida religiosa cobram vigor

quando, esquecendo-se de si mesmas vivem a paixão por Deus e pelos homens .

Aparecida, com sua proposta de “Discípulos e missionários”, é um

programa de futuro. A espiritualidade da aproximação ao Mestre, da atenção na escuta e do caminhar juntos, da disponibilidade missionária, é um modo de reafirmar o essencial, de dar vez ao outro, de ampliar a tenda do encontro; é dizer,

de construir a grande família dos Filhos de Deus8.

Aparecida oferece à Igreja e nela à vida consagrada a oportunidade de expandir-se. A análise da realidade , o reconhecimento das comunidades de base,

a eclesiologia de comunhão, o por em seu centro em Jesus, que é por sua pessoa, sua palavra, sua eucaristia; que é por no centro os mais pobres e excluídos; é um grande projeto missionário.

Nestes últimos anos tem-se insistido em que é tempo de estabelecer vínculos, criar laços, edificar pontes. Aumentaremos a tenda se vivemos e

convocamos. Viver é estar unidos à vida e dar fruto no amor (cf. Jn 15, 1-17).

8 Sobre a vida religiosa em Aparecida, cf. a conferencia de Aparecida: interpelação y estímulo. Vi-

dRel, 104 (2008), pp. 1-80.

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Aparecida é uma porta para a esperança. Ela nos pede para

estarmos atentos ao “grito dos pobres” e solidarizar-nos com eles - o que é

critério de verificação e de autenticidade de nossa vida consagrada. Nesta

atitude temos de estar por coerência evangélica e carismática9. A vida

fraterna em nossas comunidades é sinal inequívoco da presença do

ressuscitado e parábola de evangelização. Tenhamos aberta a via do diálogo

em todas suas formas (cultural, religioso, geracional, inter-congregacional e de

vida). Temos de suplicar ao Espírito que cure nossos corações, que nos liberte

de toda escravidão e que nos encha de compaixão para passar à outra

margem das necessidades mais prementes e tornar mais humano nosso

mundo segundo o desígnio de Deus.

Sempre tem sido sinais de esperança que ajudam a caminhar e encarar

com serenidade o futuro: a busca do rosto de Deus, a escuta assídua de sua

Palavra e a profecia da“vida samaritana”. Existe um futuro onde há vida segundo

o Espírito. Onde há alegria pascal.

Tradução: Hr.

9 Cf. Aparecida, n. 391, 396, 398.


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