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A oração para a autoridade na esnoga de Amesterdão como factor

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  • A orao para a autoridade na esnogade Amesterdo como factor de conservao

    da identidade portuguesa 1

    Herman Prins SalomonThe University at Albany

    Uma das caractersticas dos actos litrgicos na esnoga 2 deAmesterdo o emprego da lngua portuguesa na orao para aautoridade nacional e municipal. 3 Nesta esnoga todas as oraes sorezadas em hebraico ou aramaico, com a pronncia sefardita tpicade Amesterdo. No entanto, antes da orao da vspera do sbado edo Dia da Expiao e em cada acto religioso 4 que comporta leiturade um trecho do rolo da Tora (ou seja, o Pentateuco caligrafado empergaminho), recitada pelo oficiante uma prece em hebraico paraa prosperidade do governo da terra. 5 No meio dela so solenemente

    Cadernos de Estudos Sefarditas, n. 7, 2007, pp. 255-272.

    1 Agradeo ao Dr. Samuel Levy, de Lisboa, a ideia desta nota e ao Sr. Michael Terry aajuda bibliogrfica.

    2 Ver MAXIM. P. A. M. KERKHOF, Sobre la voz esnoga en el portugus de la NaoPortuguesa de msterdam, Filologa y Lingstica, Estudios ofrecidos a Antonio Quilos, 1,Madrid, 2005, 765-776.

    3 O locus classicus para explicar a presena de uma tal orao desde sempre em todos osrituais judaicos Jr 29, 7: Procurai o bem do pas para onde vos exilei e rogai por ele aoSenhor [] (cito pela Bblia Sagrada, Lisboa/Ftima, 2003). Cf. Esd 6, 10. Cf. DAVID ABU-DRAHAM, Perus HaBerakot VeHaTefilot (Comentrio s benes e s oraes), Lisboa,1489 (redigido em Sevilha, 1340) [76a]. Ver S. SINGER, The Earliest Jewish Prayers for theSovereign, Jewish Historical Society of England, Transactions 4 (1899-1900), 102-109; PAUL B.FENTON (Yenon), From The Geniza: Prayers for the Authorities (em hebraico comresumo em ingls), East and Maghreb (S. Schwarzfuchs, red.), 4, 1983, 7-21.

    4 Menos o da manh do 9 Ab, que comemora a destruio de dois templos e a expulsoda Espanha, e o da tarde do Dia da Expiao. Ver I. OB BRANDON, Volledige handleidingvoor den voorlezer der Portugeesch Isralitische Gemeente te Amsterdam, manuscrito de1892, publicado por J. MEIJER,Encyclopaedia Sefardica Neerlandica, Amesterdo, 1949, 2, 165-231.

    5 Pode-se consultar a traduo portuguesa no entanto sem qualquer insero espec-fica nos rituais bilingues hebraico-portugueses publicados no Rio de Janeiro por David

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  • HERMAN PRINS SALOMON

    proclamados em lngua portuguesa os ttulos dos membros da fam-lia real e da autoridade municipal de Amesterdo. 6 Em 2008 esta in-sero a seguir frase hebraica que significa queira abenoar, pre-servar, guardar, assistir, exalar e enaltecer grandemente rezaassim:

    A Sua Majestade a Rainha dos Pases Baixos; ao Serenssimo Prncipe deOrange e aos demais Serenssimos Prncipes seus filhos; a todos os descen-dentes da Casa Real de Orange-Nassau; aos ilustres membros que concorremno Governo destas terras e aos nobres e venerveis Senhores Burgomestre eMagistrados desta cidade de Amsterdam. 7

    Note-se que os nomes prprios da Rainha (Beatriz) e do seufilho primognito o Prncipe de Orange (Guilherme Alexandre) no

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    Jos Prez (1956-1966) e por Meir Masliah Melamed (ibid., 1966). Esta prece, inteiramenteem hebraico, que comea pela palavras hanoten tesua (Aquele que outorga salvao), diri-gida ao nosso senhor o rei, sem especificao, surge no temunot tehinot tefillot sefarad, oprimeiro (?) ritual impresso das oraes sefarditas (Veneza, 1519, 103 a-b: exemplar nicona Biblioteca Universitria de Leida); traduo espanhola Bendicin del rey: Libro de Ora-cyones, Ferrara, 1552, 87v. Em trs rituais manuscritos hebraicos de Espanha: (1) BL Or.11594 (s. XV); (2) Paris BN Hbr. 591 (s. XIII?: cf. COLETTE SIRAT, Un mahzor espagnoldu XIIIe sicle [], Revue des tudes Juives, 120, 1961, 353-354); (3) BL Or. 5866 (s. XIV)surge um texto inteiramente hebraico em parte diferente do de 1519. Em vez de hanotentesua, as primeiras palavras so mi seberak (Aquele que abenoou). (1) reza para o reiDon Ferrando; (2) para o rei Don Fernando;( 3) para o rei Don Fulano [peloni]).

    6 No ofcio da vspera do Dia da Expiao, no meio da bno hebraica para os quese acham em viagem, o oficiante proclama em portugus: a todos os nossos irmos queandam por caminhos. Tambm consta em muitas edies impressas deste ritual, para usodas comunidades portuguesas e hispano-portuguesas, ainda no sculo XIX, no meio dabno hebraica para os que sofrem a condio de cativos e prisioneiros, a proclamaoem portugus, que ao presente j no se faz: a todos os nossos irmos presos pela Inqui-sio. Na comunidade de Amesterdo recordam-se anualmente na data aproximada deseu padecimento dois mrtires portugueses queimados vivos pela Inquisio espanhola,inserindo o oficiante na orao hebraica em favor de sua alma, a seguir aos nomes deles, aspalavras portuguesas, que constam no ritual impresso: e mais todas as pessoas que foramqueimadas vivas em autos-de-f, santificando o nome de Deus de Israel.

    7 Ortografia actualizada pelo autor do presente artigo, a pedido da direco da Comu-nidade israelita-portuguesa de Amesterdo.

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  • A ORAO PARA A AUTORIDADE NA ESNOGA DE AMESTERDO COMO FACTOR DE...

    so pronunciados nem, por maioria de razo, os dos membros daautoridade municipal.

    Na ltima verso impressa do ritual dos judeus portugueses deAmesterdo (1993) 8, encontramos na p. 69, do lado direito, a oraoem hebraico (letras hebraicas) com a insero em lngua portuguesa(em letras latinas itlicas) (fig. 1). Do lado esquerdo, temos a tradu-o neerlandesa (letras latinas romanas) tanto da orao hebraicacomo da insero portuguesa (em itlico). Isto quer dizer que osfiis devotos e os visitantes ocasionais dos actos religiosos da esnogaamesterdamense (que agora tem tambm uma sucursal noutrobairro da cidade) so at ao dia de hoje regularmente e vrias vezespor semana confrontados dentro do prprio ritual hebraico poruma sobrevivncia da lngua portuguesa, que deixou de se falar nacomunidade portuguesa de Amesterdo desde o sculo XIX. 9

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    8 B. ISRAL RICARDO, Gebeden der Portugees-Isralieten met Nederlandse Vertaling (Oraesdos Israelitas portugueses com traduo neerlandesa), Amesterdo, 5753/1993 (segundaedio), 69. H tambm um rosto hebraico. No rosto neerlands figura o Sello do K[ahal]K[ados] De T[almud].T[ora]. de Amsterdam, com o emblema do pelicano. Kahal Kados =Santa Comunidade; Talmud Tora = Aprendizagem da Lei (nome desta comunidade).

    9 As actas das reunies da direco deixaram de escrever-se em portugus a partir dodia 8 de Junho de 1815. Ver Gemeente Archief Amsterdam, PA, Resolutie-boek 34. No en-tanto, os termos da lotaria anual da Santa Companhia de Dotar Orphs e Donzellasesto redigidos em portugus at ao presente. Ver [J.B. SONDERVAN,] Orde Trekking & Hupa,Amesterdo, 2005, 9-11. O ltimo rabino a pregar em portugus foi David Lopes Cardozo(1808-1890). Depois de meados do sculo XIX passou a pregar-se em neerlands. Porm,o uso da lngua portuguesa na comunicao do dia-a-dia no se perdeu completamente atao ltimo quartel do sculo XIX. Em 1816 saram do prelo em Amesterdo da autoriade MOSES COHEN BELINFANTE para uso da escola dos pobres dos Israelitas portuguezes em Amster-dam, Lies de leitura portugueza parte primeira e id., Elementos de soletrar da lngua portugueza.(So ao todo 187 publicaes em portugus sadas em Amesterdo 1584-1825. Ver HARMDEN BOER, Spanish and Portuguese Printing in the Northern Netherlands 1584-1825, Leida, IDC,2003.) Quando em 17 de Julho de 1854 o rei D. Pedro V visitou a esnoga, o haham AaroMendes Chumaceiro desejou-lhe as boas vindas e proferiu um discurso em portugusfluente. Ainda hoje comum entre os fiis o emprego de saudaes em portugus,tais como Boas Festas, Bom Proveito, Muitos Anos, etc. Tambm as importnciasdas ddivas e dos votos dos fiis, e muitos anncios que dizem respeito ao calendriojudaico e ao horrio das oraes, continuam a ser proclamados da teba (estrado) em portu-

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  • HERMAN PRINS SALOMON

    Nesta nota quero comentar a origem, o desenvolvimento e aconservao desta insero em lngua portuguesa no meio de umaorao em lngua hebraica recitada na esnoga portuguesa de Ames-terdo.

    O primeiro historiador da comunidade era o poeta Miguel deBarrios (por outro nome Daniel Levi de Barrios), natural de Mon-tilla (Espanha) (1635-1701), chegado a Amesterdo em 1662. Eleconta no seu Triumpho del Govierno Popular (Amesterdo, 1683/1684)que em 1596 os primeiros Portugueses de Amesterdo lideradospor dois judeus alemes, Uri Halevi e o seu filho Aaro tinham or-ganizado aqui numa casa particular um servio clandestino do Diada Expiao e que no acto de encerramento (neila) foram surpreen-didos pelo alguazil e os seus homens, que os trouxeram presos, sobacusao de terem celebrado uma missa catlica, legalmente pros-crita. Quando se averiguou que o acto foi judaico, o alguazil repre-sentante do Conde de Holanda os teria exonerado, dando licenapara a prtica do culto judaico e les pide que rueguen al Dios de Israelpor el Govierno Amstelodamo o que lhe foi prometido por boca deJacob Tirado. 10

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    gus. Ver H. P. SALOMON, Het Portugees in de Esnoga van Amsterdam (A lngua Portuguesa naEsnoga de Amesterdo), Amesterdo, 2002.

    10 Triumpho del Govierno Popular, 70. Na realidade trata-se de um embelezamento len-drio da realidade, confundindo-a com um acontecimento de oito anos posterior. De facto,em 1596 os primeiros portugueses de Amesterdo tentaram organizar, numa casa parti-cular, uma missa clandestina de Natal, a ser celebrada por um padre de Amersfoort. Foramsurpreendidos pelo aguazil e o padre preso, nada se sabendo do destino dos fiis. JacobTirado por outro nome James Lopes da Costa fundador e presidente da primeiracomunidade judaica portuguesa em Amesterdo no chegou a Amesterdo antes de1598. Uri Halevi e o seu filho s iniciaram no judasmo um grupo de emigrantes portugue-ses em Amesterdo

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